O tempo das coisas

Se encolhia, queria voltar ao que era, porém foi e não voltou. Não havia mais volta. Aquilo que uma vez foi ultrapassado não poderia ser mais costurado. Uma mente aberta nunca mais voltaria a sua forma inicial. Não poderia mais se fechar ao mundo, ele estava ali para ser olhado e vivido, não mais para ser temido. Se machuca? Machuca, sempre machucou, sempre machucará e às vezes nem se curará, porém será que é por isso que não vai mais arriscar? Com tanta coisa para conhecer? Bobagem perder os dias por medo, bobagem carregar essas dúvidas. Mesmo assim, se encolheu mais um pouco. “O mundo está aqui, mas daqui a pouco eu vou.”

 

Tudo ao seu tempo, amor.

O porquê

Não posso mentir que abandonei esse barco, mesmo passado um tempo pensando e procurando textos para colocar aqui. Tentei inutilmente me expressar por letras os tantos sentimentos que me atormentaram e alegraram por esse mês que se passou, mas, os resultados não me satisfizeram e derrotada, desisti de continuar. Cheguei , então, na conclusão de que escrever não me é mais tão necessário como um dia foi. Isso não significa que as palavras não me são mais importantes, longe disso, sem elas não teria a força que tenho hoje, porém “antigamente” era muito mais fácil ficar sentada refletindo sobre o mundo e organizar um pensamento fino sobre as coisas mais variadas, hoje isso me é impossível. Ficar isolada escrevendo enquanto o lá fora o Sol está radiando, a revolução está chegando, as pessoas estão chamando, a alegria que contagia, as experiências de vida, o amor… Eu não consigo, eu não consigo. Meu tempo agora é o de aproveitar cada instante que me é permitido, cada lugar que posso chegar, cada sentimento aberto que me vêm, cada revolta, murmúrio… Eu quero de peito aberto abraçar todas essas voltas, estar por inteira no agora! Não pensar no depois e nem no antes. Viver! Alegremente, sem culpa, sem vergonha, sem medo. Eu quero estar na companhia de quem valorizo, eu quero encarar novos desafios, eu quero desbravar novos horizontes, conhecer novos sentimentos e isso tudo agora me é mais próximo do que jamais foi, então tenho agarrado com firmeza essas oportunidades!

Mas isso não me impede de sentir saudades daquela calmaria de escrever.

Autopsicografia

“O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração”

[ Fernando Pessoa ]

A essência

“Lá está ela, mais uma vez. Não sei, não vou saber, não dá pra entender como ela não se cansa disso. Sabe que tudo acontece como um jogo, se é de azar ou de sorte, não dá pra prever. Ou melhor, até se pode prever, mas ela dispensa. Acredito que essa moça, no fundo gosta dessas coisas. De se apaixonar, de se jogar num rio onde ela não sabe se consegue nadar. Ela não desiste e leva bóias. E se ela se afogar, se recupera. Estranho e que ela já apanhou demais da vida. Essa moça tem relacionamentos estranhos, acho que ela está condicionada a ser uma pessoa substituta. E quem não é? A gente sempre acha que é especial na vida de alguém, mas o que te garante que você não está somente servindo pra tapar buracos, servindo de curativo pras feridas antigas? A moça…ela muito amou, ama, amará, e muito se machuca também. Porque amar também é isso, não? Dar o seu melhor pra curar outra pessoa de todos os golpes, até que ela fique bem e te deixe pra trás, fraco e sangrando. Daí você espera por alguém que venha te curar.

Às vezes esse alguém aparece, outras vezes, não. E pra ela? Por quem ela espera? E assim, aos poucos, ela se esquece dos socos, pontapés, golpes baixos que a vida lhe deu, lhe dará. A moça – que não era Capitu, mas também têm olhos de ressaca – levanta e segue em frente. Não por ser forte, e sim pelo contrário… Por saber que é fraca o bastante para não conseguir ter ódio no seu coração, na sua alma, na sua essência. E ama, sabendo que vai chorar muitas vezes ainda. Afinal, foi chorando que ela, você e todos os outros, vieram ao mundo.”

[ Caio Fernando de Abreu ]

Paranóia

“- Amor? Não sei. É meio paranóico. Parece uma coisa para enlouquecer a gente devagar.”

[ Caio Fernando de Abreu ]

 

-x-

Texto na íntegra

You Only Live Once

O tombo ou o Vôo

“Tentaram me fazer acreditar que o amor não existe e que sonhos estão fora de moda. Cavaram um buraco bem fundo e tentaram enterrar todos os meus desejos, um a um, como fizeram com os deles. Mas como menina-teimosa que sou, ainda insisto em desentortar os caminhos. Em construir castelos sem pensar nos ventos. Em buscar verdades enquanto elas tentam fugir de mim. A manter meu buquê de sorrisos no rosto, sem perder a vontade de antes. Porque aprendi, que a vida, apesar de bruta, é meio mágica. Dá sempre pra tirar um coelho da cartola. E lá vou eu, nas minhas tentativas, às vezes meio cegas, às vezes meio burras, tentar acertar os passos. Sem me preocupar se a próxima etapa será o tombo ou o voo. Eu sei que vou. Insisto na caminhada. O que não dá é pra ficar parada. Se amanhã o que eu sonhei não for bem aquilo, eu tiro um arco-íris da cartola. E refaço. Colo. Pinto e bordo. Porque a força de dentro é maior. Maior que todo mal que existe no mundo. Maior que todos os ventos contrários. É maior porque é do bem. E nisso, sim, acredito até o fim.”

[ Caio Fernando Abreu ]

Os Idealistas

“Há sem dúvida quem ame o infinito,
Há sem dúvida quem deseje o impossivel,
Há sem duvida quem não queria nada -

Tres tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o possivel,
Porque eu quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
Ou até se não puder ser…”

[ Àlvaro de Campos ]

A Justificativa da Ausência

É difícil demais parar e escrever quando se há o que sentir. Passei esse tempo ausente sentada em baixo de alguma àrvore com uma companhia formidável ao inves de anônima escrever poesias de vida. Lembro-me bem que, em Dorian Gray, Oscar Wilde diferencia dois poetas: aquele que guarda toda a sensibilidade da vida para o papel em branco e aquele que vive sua poesia de maneira intensa. Ambos são grandes escritores, cada um a sua maneira. E eu, sincera e humildemente, espero que seja como este segundo.

A Lenda

“Conta a lenda que dormia
Uma Princesa encantada
A quem só despertaria
Um Infante, que viria
De além do muro da estrada.

Ele tinha que, tentado,
Vencer o mal e o bem,
Antes que, já libertado,
Deixasse o caminho errado
Por o que à Princesa vem.

A Princesa Adormecida,
Se espera, dormindo espera.
Sonha em morte a sua vida,
E orna-lhe a fronte esquecida,
Verde, uma grinalda de hera.

Longe o Infante, esforçado,
Sem saber que intuito tem,
Rompe o caminho fadado.
Ele dela é ignorado.
Ela para ele é ninguém.

Mas cada um cumpre o Destino —
Ela dormindo encantada,
Ele buscando-a sem tino
Pelo processo divino
Que faz existir a estrada.

E, se bem que seja obscuro
Tudo pela estrada fora,
E falso, ele vem seguro,
E, vencendo estrada e muro,
Chega onde em sono ela mora.
E, inda tonto do que houvera,
A cabeça, em maresia,
Ergue a mão, e encontra hera,
E vê que ele mesmo era
A Princesa que dormia.”

[ Fernando Pessoa ]

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